domingo, 27 de setembro de 2015

O chip



E no ponto mais alto do maior edifício da cidade, um homem de bem tenta salvar a vida de um jovem que aparentemente pretende dar cabo da própria vida. Com apenas um pé no chão, o garoto não sai do celular, o qual deve estar usando para se despedir de quem o levou a fazer isso.
- Rapaz, não faça isso, não. - diz o salvador - A vida é um milagre. Deus tem um plano para cada um de nós. Jesus te ama. Olha quanta gente lá embaixo está torcendo para que você desista dessa besteira – alguns gritavam “pula! Pula!” – Não importa o quanto essa pessoa seja importante para você, ela não vale a pena.
- Que besteira?
- Ora, que besteira, se matar, uai.
- Oi, como? Me matar? Como assim? Desculpa, amor (falando ao celular). Como assim, senhor? Me matar?
- Você não veio aqui para se jogar?
- Me jogar? Ah não, que isso? Não é nada disso, não, amigo. É que meu chip é da TIM.

sábado, 18 de julho de 2015

Eu, câncer?





Mandela ou Máscara da Morte



Não acredito em horóscopo. Não, muito embora acredite que todas as dicas que estão ali sirvam para todos, independentemente de terem nascido em janeiro, fevereiro, julho ou dezembro.

Não tenho culpa de ter nascido em julho. Meus pais que me fizessem em outra data, ora! Enfim, nasci naquele mês em que nascem os de bons coração, segundo o horóscopo (balela).

Durante muito tempo, não me agradava meu nome ― e ainda não me agrada. Ser o guerreiro da paz não estava nos meus planos. Preferia ser um bruto. Mas, assim como com o nome, também não gostava muito de minha data de nascimento. Quando mais novo, até gostava, 18/07. Bons números, boa combinação. Que nada, balela.

Meu desgosto com minha data começou quando eu conheci o horóscopo. Em pensar que câncer me lembrava o cavaleiro Máscara da Morte, personagem de "Os Cavaleiros do Zodíaco". Eu me sentia muito bem representado por ele. Foi só depois dele que eu passei a responder com orgulho: meu signo é câncer.

Algum tempo mais tarde, porém, vim a saber que câncer não era só um signo do Zodíaco ou uma constelação. Não, câncer era uma das doenças mais cruéis que poderia afetar o ser humano. Câncer, câncer, câncer...

Embora quando criança gostasse mesmo de desenhos, sempre assistia a, pelo menos, um telejornal. Foi nessa época que eu comecei a ouvir falar em um homem chamado Nelson Mandela. E pelo que ouvia falar, via nele um homem que me fizesse ter até certo gosto pela bondade. Não sabia se aquele homem era um político ou um santo, só sabia que o admirava de certa forma. Em meu aniversário no ano de 2007, soube que Mandela nasceu na mesma data que eu, o então já odiado 18/07. Só então voltei a gostar da data, vendo nela um valor inestimável para o mundo; afinal, Mandela é de longe o maior de todos os homens que viveram em minha era, senão o maior homem de que se tem notícia.

Essa data e eu, eu e essa data. Não sei se sou a figura que sou hoje por que nasci em tal data (ah, isso eu descarto) ou se porque fui criado como fui (a música de Milton Nascimento, Caçador de mim), um bom rapaz, um sujeito de paz, igor. Mas ainda sinto um certo prazer quando ouço "mas você não tem coração mesmo, né?"