domingo, 16 de novembro de 2014

Assassinado pela procrastinação




era uma manhã como esta,
depois uma tarde,
depois noite
mas as atividades,
estas ainda eram as mesmas.
mãe, pai, irmãos, a sala, o futebol...

era uma manhã como a de ontem,
depois tarde,
depois noite

era, era, era...
foi, foi, foi...
era tempo de sobra
era vida de sobra
era trabalho de sobra,
mesmo quando pouco.
eram sonhos de sobra...

um dia a morte pôs fim a tudo,
e ela não chegou atrasada

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Ida ao Maracanã




Bom, se tem uma coisa em que eu nunca prestei muita atenção é no fato de que o sotaque só é mesmo notado por quem não o tem.
Minha primeira ida ao Maracanã, uma vontade de menino realizada. Saindo de Campo Grande, acompanhado por um amigo, parti em direção ao Terminal Alvorada, na Barra da Tijuca. Quando chegamos ao terminal, ele, que também não sabia como chegar ao estádio, me ajudou a pegar algumas informações sobre como chegar. Ele ia trabalhar e, como só sairia com pouco tempo para chegar ao estádio, não estaria lá a tempo de ver o jogo. Eu o acompanhei até uma lanchonete próxima ao terminal. Após isso, dei um passeio pela Barra, ô área que tem shoppings, viu?!
Em meio ao meu passeio, um segurança de plantão que me via passar reclamou do fato de passado um vascaíno por ele, “justo hoje que o mengão vai ganhar, o cara passa aqui com camisa do Vasco!” Cumprimentei de longe, mas mudei de ideia e me aproximei, fui perguntar por algum posto de venda fora o próprio Maracanã. Na hora, pelo sotaque, ele reconheceu, “ah, tu é mineiro da capital, né?” Realmente, eu sabia que dava para notar que eu não era de lá, mas de cara notar que eu sou de BH, essa eu não imaginava, até mesmo porque, por conta de uma agenesia dentária e uma língua enorme, fora uma voz horrorosamente grave para alguém que não tem nem 1,70m de altura, quase ninguém, mesmo aqui em BH, entende o que eu falo.
Um pouco depois de dar umas voltas pela Avenida das Américas, quase todo esse tempo em busca de um caixa eletrônico (o que estava embaixo do meu nariz, lá perto do terminal, e eu não via), voltei para o Terminal Alvorada, e foi aí que recebi a iluminação suprema linguística, aquela quer serviu para que eu entendesse que a língua falada corretamente é aquela que se entende entre interlocutores. Primeiro, perguntei a um trocador (agente de bordo, se preferirem):
- Amigo, para ir para o Maracanã, como eu faço?
- Irmão, pega aqui o 301 e desce na estação “Sench Pena”, lá tu pega metrô, desce na Estácio e de lá desce no Maracanã.
- Deixa eu ver, pego o 301, desço na “Vicente Pena”...
- “Senchs Pena”.
Fui para o ponto do 301. Lá, perguntei a mais um trocador se ele passava na estação “Champagne”.
- O quê?, perguntou o trocador.
- Estação “Sean Penn”.
- Estação “Senchs Pena” tu quer dizer, né?
- Isso.
- Passa.
Agradeci e, finalmente, quando o ônibus que iria sair ligou o letreiro, vi que ele passava na Estação Saenz Pena. Não perdi tempo, ao chegar à roleta (catraca para quem não é daqui), pedi ao trocador:
- Amigo, você me avisa quando chegar à Estação Saenz Pena?
- Oi?
- Estação “Xespenca”.
- Estação “Senchs Pena”, é?
- Isso, essa mesma!
- Tranquilo, eu te falo.
Ao chegar à estação, vi que não me encontrava em nenhuma estação “Senchs Pena”, “Saenz Pena”, “champagne”, “Sean Penn”, “prexeca”, “xespenca”, “chispita”, era apenas a estação da praça Sáenz Peña (algo que eu leio mais ou menos como Sáenz Penha). Não foi difícil chegar ao estádio a partir dali; difícil mesmo foi engolir os 3x0 do Flamengo sobre o meu Cruzeiro. Essa linguagem, a de quem perdeu, sempre é mais difícil de falar.