Olhares
Mulheres de olhos verdes sempre chamaram mais minha atenção. Tenho que
admitir, o que para elas são apenas um par de olhos pode ser meu tendão de
Aquiles.
Confesso que eu tenho a mania de separar as pessoas em grupos, geralmente
de acordo com sua aparência física. Isso não tem nada a ver com racismo ou
coisa do tipo, pois não as separo de acordo com a etnia, e sim,
independentemente da origem, em lindas, bonitas, normais e desprovidas de
beleza, etc. Eu, por exemplo, sem problema nenhum por isso, me considero
normal.
Mas não estou aqui para falar sobre mim, e sim para contar a história de
duas lindas mulheres. Na verdade, as duas mais lindas que já conheci.
Eu estava tentando me alinhar aos horários do novo emprego. Eu pegava um
ônibus para chegar à firma. Não era um caminho muito longo, mas eu levava uns
30 minutos para chegar ao meu destino. Desde o primeiro dia, comecei a reparar
em duas meninas que pegavam o mesmo ônibus, uns dois pontos depois de mim. Elas
pareciam estar indo para a faculdade ou algo assim.
Uma delas, aparentemente um pouco mais tímida do que a outra, chamava
mais a minha atenção. Não sei por quê. A outra tinha tantos outros motivos para
ser tida como mais atraente. Falante, extrovertida. Por conta dessa diferença,
embora se parecessem uma com a outra, levei um bom tempo para descobrir que
eram irmãs.
Sempre que tinha oportunidade, eu trocava olhares com a mais calada. Às vezes,
com a irmã também, mas gostava mesmo era da introvertida. Aquele jeito tímido
mexia comigo. Era como se ela tivesse algo guardado para mim. Eu só não
imaginava que a outra irmã também guardava um segredo.
Trocamos olhares por duas semanas. Até que em um dia, quando o ônibus estava
cheio e não havia lugar para que se sentassem, ofereci o meu lugar. Como ganhei
um sorriso das duas aproveitei a oportunidade para puxar uma conversa à toa,
falar um pouco sobre mim — muito pouco mesmo — e perguntar bastante sobre elas,
descobrir o que faziam, de onde eram, o que queriam da vida. Descobri que eram
do interior.
Nesse mesmo dia, um intrometido, muito humilde por sinal, em pé à minha esquerda
— à direita estava a irmã mais nova, a tímida, a outra se sentou no lugar que
eu ofereci —, parecia prestar atenção à nossa conversa, o que incomodava não só
a mim, mas também as meninas.
Três pontos antes do meu, elas desciam. Mas o infeliz, o intrometido que
ficou ouvindo a nossa conversa, descia no mesmo ponto que eu. Nesse dia, ele
aproveitou para fazer fofoca. Chegou me dizendo:
— Aí, amigo, toma cuidado com essas duas. São gente da pior qualidade.
— Quem é você pra me falar uma besteira dessas? — questionei o enxerido.
— Também sou da cidade delas. Conheço a história delas. Sei por que elas
saíram de lá. E não foi só pra estudar não. Toma cuidado, porque essas aí, ó,
têm pacto com o demo. Deus me livre, não gosto nem de falar. Elas já mataram
crianças. Já mataram uns namorados também.
— Larga de ser besta, homem. Vai cuidar da sua vida, porra!
Não levei muito a sério o que aquele cara me falou, apesar de ter tido
vontade de dar um murro na cara dele. Fui trabalhar tranquilo, quer dizer, nem
tanto porque me senti idiota de não ter pegado o telefone de nenhuma delas. No
entanto, era sexta-feira. E como não iria vê-las durante todo o fim de semana,
uma hora aquela besteira iria voltar à minha cabeça. E voltou.
Mas, no fundo, no fundo, essa baboseira toda não me incomodava mais do
que não ter pedido o telefone de nenhuma delas. Eu acabei perdendo uma bela oportunidade
de chamar uma delas para um chope no fim de semana. Qualquer uma delas que
aceitasse já estaria bom. Afinal, apesar de prestar mais atenção na mais tímida,
não descartaria a outra. Ela também era muito linda mesmo. Ambas tinham belíssimos
olhos verdes. Não um verde claro, que é mais comum, mas um verde mais escuro,
coisa de europeia. Sabe? Só de pensar naqueles pares de olhos, eu começo a
entender por que eu demorei tanto para trocar algumas palavras com elas. Eu não
sou tímido a esse ponto. Não sou como irmã mais nova (talvez seja por essa
timidez que eu sinta maior atração por ela). Se não fossem a cor daqueles
olhos, eu não ficaria tanto tempo só trocando olhares. Chamavam mais atenção
dos que os mais belos seios nos decotes mais perfeitos. Ora essa, sou homem,
admito a hipnose. Mas se houve algo nessa vida que me hipnotizou mais do que
qualquer todo e qualquer par de seios, foi a cor dos olhos daquelas meninas, em
especial os da mais nova.
Na segunda-feira, quando as vi entrando no ônibus, senti aquele alívio no
peito, iria conversar com elas novamente. Desta vez, até as cadeiras me beneficiavam.
Sentei na penúltima fileira do corredor. Havia uma cadeira vazia ao meu lado e
outra atrás. Iríamos voltar a conversar.
Para minha surpresa, a mais extrovertida, In ês o nome dela — nome um pouco velho para alguém da idade dela —, se
sentou na última fileira, na cadeira do meio. O lugar do meu lado ficou para a
tímida, que se chama Ieda.
Ainda assim, conversei mais com a Inês. Por isso estranhei ela ter não ter
se sentado ao meu lado. Peguei o número dela, mas a Ieda, que não tirava os
olhos dos seus livros, ainda chamava mais a minha atenção. Entre uma frase e
outra trocada com a Inês, eu tinha que olhar para a Ieda. Era incontrolável.
Os olhos da Ieda eram mais atraentes do que o mais belo decote.
Como em todas as viagens, elas desceram no ponto de sempre e eu fiquei no
ônibus, assim como aquele infeliz que na sexta-feira me falava delas.
— É, rapaz, você continua a mexer com essas meninas, né?
— Eu já não te mandei tomar no cu? Se não, eu estou mandando agora.
— Eu sou de lá da terra delas, homem. Elas fugiram de lá. Elas já têm
mais de dez mortes de crianças nas costas. Cada uma já matou, pelo menos, um
namorado. E tem mais, não matam que nem assassino, não. Matam que nem bruxa. Os
meninos da vizinhança, os namorados, tudinho intoxicados por chumbo.
— Chumbo? Elas davam chumbinho pros caras?
— Não. Eles morriam contaminados por chumbo, sim, mas era coisa de bruxaria.
Quando faziam a autopsia, encontravam uma bola enorme de chumbo dentro do estômago
deles.
— E o que elas têm a ver com isso?
— Sempre acontecia com pessoas ligadas a elas. Isso nunca foi resolvido.
Elas nunca sofreram nenhuma acusação.
— Se tem uma coisa que eu sei que elas não são é assassinas.
— Quem avisa amigo é.
— Ó, passar bem, e vê se não incomoda.
Apesar de ver aquele sujeito enxerido como um mero pé-no-saco, fiquei receoso
com o que ele me disse. Cheguei a me lembrar de um caso desses virando notícia
em um telejornal. Não me lembro do nome da cidade, assim como não me lembro do
nome da cidade delas. Se eu ao menos tivesse prestado atenção a esse detalhe,
ou pelo menos se não me sentisse incomodado ao perguntar àquele sujeito qual o
nome daquela cidade, eu, no mínimo, poderia fazer uma pesquisa e ler um pouco
mais sobre o caso. Mas que eu me lembro vagamente de um caso desses, eu me
lembro.
O receio
Andei procurando algumas coisas no Google. Li uma reportagem chamada “Carne
e chumbo”. Em uma cidade que mais parece um brejo, algumas pessoas foram
encontradas mortas sem razão aparente em uma comunidade. Todos homens, alguns
menores de idade. Algumas pessoas reclamavam de uma seita que faria alguns rituais
estranhos, que incluíam até o consumo de drogas e outras substâncias, chumbo,
por exemplo.
A partir daí, meu amigo, não tinha outro jeito. Fiquei com receio. Não
sei como iria conversar com elas agora. Resolvi: na manhã seguinte, pegaria o
ônibus mais cedo.
Que sensação estranha era essa, eu nunca fui tão medroso assim. E o pior,
aquela atração que eu tinha pela Ieda foi se tornando em repulsa. Eu não sabia
mais o que pensar dela, só sei que já não tinha mais fantasia com aqueles olhos
verdes cor de mar. Estava com medo das duas. E olha que eram tão lindas e
tinham um ar de gente de cidade grande, que em momento algum me passaria pela
cabeça pensar naquilo.
Durante uma semana, minha nova estratégia deu certo. Estava pegando um ônibus
mais cedo, não as via mais, paquerava uma colega de trabalho. Estava indo tudo
bem. Até que na terça-feira seguinte pegaram o ônibus mais cedo. E lá estava
eu, desta vez por infelicidade, no mesmo lugar em que estava da última da vez,
sob as mesmas condições. Eu poderia ter rezado um rosário antes que elas se
aproximassem para que, desta vez, elas não se sentassem perto de mim. Mas, tão
logo estavam na catraca, já haviam me visto, o que fazer? Que tal perguntar:
“ei, Inês, vocês não estão envolvidas com uma seita que matava homens e meninos
fazendo com que eles ingerissem chumbo?”
Dei-lhes um sorriso amarelo.
— Oi — me cumprimentou a Inês.
— Oi — eu respondi banhado em suor.
Ieda também me cumprimentou, do jeito reservado dela.
Como da última vez, Inês se sentou na última fila e Ieda, ao meu lado.
Eu já não tinha mais clima para conversa, mas como a Inês não sabia
disso, foi logo me questionando por que eu estava pegando o ônibus mais cedo.
Respondi que tinha que chegar mais cedo à firma.
— Que pena. A gente não sabia. — ela continuava — E você nem pra avisa à
gente, hein? A Ieda é que ficou triste por você ter sumido.
— Deixa de besteira, sua louca! — Ieda ficou incomodada, mas depois me
deu um sorriso tímido.
Opa! Termicamente eu já não era o mesmo ser. Um pouco vermelho por fora,
como se as coisas tivessem esquentado, frio por dentro, como quem sente alívio
ao sair de um ambiente quente e abafado para uma sala com ar condicionado.
— Também senti falta de vocês. De você em especial, Ieda.
— Obrigada.
Como é estranho, eu já não estava com receio, já não as via como
assassinas satanistas que faziam homens e meninos engolirem chumbo. Agora eu
queria conversar um pouco com elas e, se a timidez dela não atrapalhar,
combinar um sorvete com a Ieda, afinal de contas ela não bebia. E foi o que eu
acabei fazendo. Agora eu estava fazendo progresso. Mas antes precisava
dispensar a Cláudia, a colega de trabalho com quem eu já iria sair no sábado
seguinte.
Na quarta-feira eu peguei o ônibus que costumava pegar antes, e não as
encontrei. Deviam ter pegado o que passava mais cedo. Ó, como sou burro.
Na quinta, estávamos novamente no mesmo ônibus. Podíamos conversar sobre
qualquer coisa. A Inês sempre falava mais mesmo. Se ela estava querendo dar uma
de cúpido para a irmã, como parecia antes, eu não sei, mas que ela falava
muito, ela falava.
Não queria deixar a dispensa da Cláudia para a sexta, ela iria ficar puta
comigo. Inventei uma desculpa qualquer (falei que tinha que ir visitar minha
mãe porque ela estava doente). Agora eu podia curtir o sábado com a Ieda.
Na sexta-feira pela manhã, mais uma vez nos encontramos no ônibus. Eu lembrei
a Ieda do sorvete.
Pronto, em uma semana todo aquele pânico que eu tinha em vê-las havia se
tornando em alegria. Até dispensei a Cláudia, e não tinha arrependimento.
Nossa ida a uma sorveteria estava indo muito bem. Que me perdoem pelo
trocadilho, mas eu estava quebrando o gelo. Eu não tinha vergonha de ser apenas
um operário com curso técnico enquanto ela era estudante de Química. Nada podia
me deixar para baixo naquele encontro, exceto uma palavra em especial. Ieda me
contou que estava fazendo um estudo acerca dos efeitos do chumbo em organismos
vivos. Acho que sou o primeiro homem do mundo a ter se engasgado com sorvete. A
partir daí, eu não estava mais a acompanhando, me sentia mais um refém. Mais
gelado do que o sorvete era o suor que me desceu pelas costas. Não queria mais
fazer perguntas, não queria saber mais nada da vida dela. Queria mesmo é ir
embora, me esconder embaixo da coberta, da cama que fosse.
Droga! Será que ela imaginava que eu sabia de alguma coisa? Será que ela
podia sentir meu medo?
O que elas faziam?
Não estendi a conversa até a noite. De uma hora pra outra, tudo o que
aquele infeliz havia me falado tinha voltado a fazer sentido. Estranho. Não é
todo dia que se vê um cara como eu com medo de assombração, bruxaria ou o que
quer venha do além. Eu nem sou de acreditar nessas coisas (falo isso mas faço o
sinal da cruz).
Não liguei assim que cheguei em casa, nem mesmo no domingo.
Na segunda-feira peguei o ônibus mais tarde, o que eu costumava pegar
antes. Estava livre das feiticeiras. Procurei o mala. Não o encontrei. No dia seguinte,
peguei o mesmo ônibus e ele estava lá. Elas, com certeza, deviam ter pegado o
ônibus anterior. A Inês até me ligou, mas não atendi. Fui conversando com ele
até de descer. Ele me falava que não eram só elas duas que faziam parte da
seita, mas umas dez mulheres na região.
Eu dei toda a atenção que me parecia necessária.
À tarde, um pouco depois do meu horário de saída, a Inês me ligou. Estava
puta. Me perguntou se eu estava achando que a irmã dela era palhaça. Tivemos
uma longa conversa pelo celular. Eu dei todas as desculpas que encontrava. Eu
estava em pânico. O cara, Mariano o nome dele, me falou mais coisas.
No dia seguinte não as evitei. Peguei o ônibus que passava mais cedo.
Quando entraram, havia só mais um lugar vazio ao meu lado. Resolvi ceder minha
cadeira para que as duas se sentassem.
— Nada disso, vou ficar lá na frente. — disse a Inês — Vou deixar vocês
conversarem.
Eu não sabia o que dizer, o que falar. Talvez perguntasse: “vocês não
fazem parte de uma seita que matava homens e meninos fazendo-os engolir
chumbo?”, mas isso era demais para mim.
— E aí, como vai o seu trabalho, o do chumbo? — perguntei.
— Qual deles?
“Qual deles?” Quer dizer que havia outro trabalho com chumbo.
— Você não tinha um só trabalho a respeito do efeito do chumbo em seres vivos?
— Ah, sim, só ele mesmo. Vai indo, vai indo.
Com medo do que elas poderiam lhe fazer, Mariano, o mala, não quis me
passar o número dele. Havia algo de muito estranho nessas meninas e ele
provavelmente sabia disso muito melhor do que eu.
Eu não estava conseguindo trabalhar direito. Meu trabalho exige certa
precisão. Tenho que avaliar uma série de peças de maquinário que chegam ao meu
setor. São peças que servem para montar geradores elétricos. Um leve defeito em
uma peça exige o seu retorno imediato ao fabricante, mas quem disse que minha
cabeça conseguia pensar nisso? Se havia alguma coisa que eu não tinha naquele
momento, essa coisa era a concentração.
Há uma outra coisa que eu não havia falado sobre elas, mais precisamente
sobre a Inês. Ela fazia medicina. No dia seguinte, em meio à nossa conversa,
após elas me falarem sobre a rotina delas, eu falei que sempre as via juntas.
Ela me disse que era só porque era de manhã, mas que, apesar de não se verem em
boa parte do dia, elas eram como “carne e chumbo”, depois corrigiu, dizendo “carne
e unha”.
Na sexta-feira, apesar da timidez, a Ieda estranhamente tomou a
iniciativa e me chamou para ir à casa delas. A Inês e o novo namorado dela
também iriam estar lá.
Quem é quem?
Finalmente havia chegado minha hora. Tão cedo. Poxa, não iria me formar,
casar, ter filhos. Iria morrer aos 20. Não escrevi livro e tampouco plantei
árvore alguma, mas também não iria negar o convite. Iria à casa delas, mesmo
que com o cu na mão. E fui.
Moravam num apartamento simples, de aluguel. Elas, eu e a outra vítima,
digo, o namorado da Inês, estávamos assistindo a um filme. Mas a Inês e o cara
saíram de perto. Eu estava acanhado, já que iria morrer mesmo.
Durante a tarde toda, recusei pipoca, refrigerante, numa hora que elas
foram à cozinha o namorado da Inês até me perguntou se eu não queria um
baseado.
A Ieda quis me mostrar o quarto. Excelente, a última transa. Mas ela não
estava tão mal intencionada quanto eu pensava. Não posso dizer o mesmo do outro
casal. Entraram no quarto e fecharam a porta. Em pouco tempo, o cara já estava
gritando. Feliz dele, quando eu fechei a porta, a Ieda, mesmo constrangida,
abriu de volta. Mas aqueles gritos eram mesmo estranhos. Estavam muito agudos. A
porta do outro quatro se abriu. Ouvi um leve “que merda” da boca da Inês. O
cara saiu de lá não se aguentando de dores no estômago. Só tive tempo de
empurrar a Ieda pra cama, a Inês tentou me impedir de sair. O outro cara
continuou lá, gritando, e os vizinhos ficaram na escada me atrapalhando de
descer. Não importava, saí empurrando todo mundo mesmo.
Daquele dia em diante, mudei de linha de ônibus e passei a me esquivar
das feiticeiras. Um dia, tive a impressão de ver o tal do namorado da Inês no
centro da cidade. Gritei um “ô!”. Era ele mesmo.
— E aí, cara, você não tinha morrido naquele dia? — perguntei de uma
forma pra lá de idiota.
— Aquele dia, na casa da Inês? É claro que não, está louco?
— O que você teve?
— Tenho uma úlcera que dói muito de vez em quando. Alguma coisa tinha me
feito mal. Mas e aí, por que você saiu correndo daquele jeito? Achou que eu
tinha levado um tiro?
— Não. Úlcera? Tipo, nada a ver com chumbo?
— Chumbo? Por quê?
— Nada não, nada não.
Fui embora. Achei estranho ter visto aquele cara vivo. Bom, não quis perguntar
sobre elas. Apesar de tê-lo visto vivo.
Após esse dia, voltei a ver, no ponto em que descia do velho ônibus para
ir para a firma, o cara que havia me falado das meninas. Cumprimentei e
perguntei se ele as havia visto por esses tempos.
Depois que eu saí de perto dele, um outro cara que também descia por ali
me deu um aviso:
— Ei, cara, não fica de conversa com esse cara não. Eu vim da mesma
cidade que ele. Lá ele era conhecido por fazer uns rituais macabros. Dizem que
já matou muitos caras fazendo com que eles ingerissem chumbo.
— Ele?
— Sério. Esse cara é muito perigoso.
Excelente. Agora quem me alertava sobre a feitiçaria das meninas era o
próprio feiticeiro. Eu, sinceramente, não sei mais sobre esse povo. Nem sobre
as meninas, nem sobre o suposto feiticeiro, nem sobre esse cara que me deu esse
aviso. O fato é que não guardei nem o nome da cidade, mas se eu conhecer alguém
de lá, só tenho uma certeza, a conversa termina ali.