segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Nós e a nossa eterna busca por espaço (vazio)

Certo dia, assistindo a um vídeo de uma palestra do Mario Sérgio Cortella, fiquei chocado ao vê-lo falar em um dos meus mais novos hábitos, a busca por espaço vazio. Acho que ainda não sei o quanto isso é sério.

A princípio era só o computador, eu queria mais espaço vazio em meu hd; hoje quero em tudo. Quero morar só, em uma casa em que eu possa ver todos os cantos, em que eu possa ver as paredes. Quero sentir esse vazio todo, que me possibilita mais armazenamento. Mas armazenamento de quê? Sim, porque não quero móveis para encostar na parede, senão, é claro, uma estante de livros. Mesmo assim, já começo a me entregar aos livros digitais.

Digital, digital, digital. Tudo agora é digital. Livros digitais; filmes, vários, guardados em um aparelho menor que um dedo; músicas? Inúmeras. Todas compactadas em outro aparelho, do mesmo tamanho ou menor do que o que guarda os filmes, os livros, as fotos, as lembranças, a saudade. E eu ainda quero mais espaço vazio, para não guardar nada, obviamente.

Quero espaço na rua. Sim, andar em ruas mais vazia. Sou desastrado; meus pés, desobedientes, e por isso tenho sérias dificuldades para andar em linha reta.

Quero mais espaço vazio no trânsito, mesmo andando de ônibus. O espaço vazio nos proporciona uma viagem mais rápida.

E nesse meu egoísmo, querendo todo espaço, eu vou me esquecendo do que há de melhor nessa vida, o que não implica em ter espaço, muito pelo contrário, não é por espaço que nós homens lutamos a vida toda. Por que dessa obsessão por espaço quando tudo o que eu mais desejo é terminar a noite me espremendo entre uma mulher e um colchão? Só numa hora dessas eu entendo que o quero não é espaço vazio, não é oxigênio de sobra. Não! Quero mesmo é me espremer, com muito ou pouco espaço, não faz diferença! Quero mesmo é me apertar, suar, sentir esse calor que nem mesmo o ar condicionado abaixa.


E se esse é meu maior desejo, por que eu ainda penso tanto em espaço vazio? Eu ainda não sei, mas uma coisa é certa: não serão em mil páginas em branco que se encontrarão as mais belas histórias.

Palavra de caderno

Estive o dia inteiro do lado de sua caneta. Sério, sou seu diário. Não sei se você conta a outras pessoas os segredos que escreve aqui, ou mesmo se pretende contar um dia.

Aliás, nem escrevido aqui você tem mais. Vive culpando a rotina toda vez que me pega apenas para jogar de lado. Não deixa de ter a intenção, mas age como se não tivesse mais motivos, ou como se precisasse de inspiração.

O que houve com sua vida que fez com que ela perdesse aquele gosto. Parece que já não tem romance, não tem mais o que contar, não tem mais nada de novo. Tudo o que interessa agora é dormir tarde com a tv ligada para acordar bem cedo e sair correndo. E você ainda chama isso de vida.

Não sei exatamente quando você vai decidir que chegou a hora de voltar a escrever aqui. Hora de guardar segredos. De escrever ideias novas, planos. Olha, eu não sei quando. Quem sabe na próxima mudança você não me perca. Não vou ser o primeiro.


Agora, se resolver voltar a escrever aqui, não vou revelar nada a ninguém, a menos que outra pessoa me encontre e me arranque todas as informações. Seria como se me arrancassem tudo por tortura. Mas eu garanto, com uma letra dessas, ninguém vai decifrar nada tão cedo. Eu garanto, palavra de caderno.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Com uma vírgula por aí



Coloco vírgula, onde eu quiser
A palavra é minha agora.
E se a palavra é, 
A pontuação, a virgulação também o é.

Não é que eu não saiba escrever
Pontuar, virgular, enfim (sem fim)

Eu não coloco vírgula entre o verbo e o sujeito,
Não restrinjo a explicações,
Não aposto com quem 
chamo pelo aposto e não pelo vocativo.

Agora, 
se eu achar necessário,
Coloco vírgula até no sujeito mais simples,
Separo-lhe de seus predicados,
Enfio-lhe uma no queixo.

Quero ver quem vai dizer 
que é burrice minha,
Ao ver o desaforado a andar por aí
Com uma forçada covinha.

Conspirem já


Esse mundo está ficando cada vez mais perdido, e olha que eu nem sou conservador, muito pelo contrário. Se fosse, teria eu parido um par de gêmeos, tamanho é o choque que essas notícias me causam. Sinceramente, eu não consigo acreditar no que tenho visto, mesmo martelando em minha cabeça que as coisas estão assim.

Pela manhã, eu via em vi a notícia: garota de 9 anos — isso mesmo, nove anos, não dezenove, criança, não adolescente — dá à luz e pai está foragido. Isso ocorreu no México. Chocante, não? Mas, como se não bastasse isso, agora à tarde vejo outra notícia um tanto similar: após completar 12 anos, menina dá à luz gêmeos. Se a lei vê uma menina dessa idade como adolescente, eu confesso: eu vejo como criança.

Dá para acreditar numa coisa dessas, melhor dizendo, duas?

O fato é que estamos à beira da extinção do mito. Prestemos atenção ao seguinte ponto: as crianças estão se tornando adultas muito cedo, muito cedo mesmo. Começam a ler cedo, a questionar muito cedo, assistem a muito daquilo que consideramos realidade na televisão. Ficam críticas muito cedo. Querem ser adultos cada vez mais cedo.

Já não há mais cegonha para servir de escudo para pais que tiveram filhos mais novos cujos irmãos mais velhos não os aceitam. Não há mais álibis para o pai justificar uma gravidez não planejada. O filho sabe desde cedo, “pai, vocês fizeram aquilo, e sem camisinha! Agora eu tenho que dividir tudo o que é meu com esse fralda cagada aí.”

Se há um ponto um tanto controverso em que eu toquei acima, é o ponto de que estão lendo muito cedo. Pois bem, isso não é necessariamente um problema. Não mesmo, depende do que leem. Há, porém, algumas possibilidades do dia a dia que envolvem esse fato. Assim que começa a ler, a criança, lendo palavra por palavra que vê na rua, ainda sem maiores ideias do que pode ser sintaxe, coerência e coesão, lê uma palavra isolada e faz aquela pergunta que coloca esta geração, que vê crianças de nove anos de idade serem mães, contra a parede: “pai, o que é motel?”

Como ficam críticos tão cedo, logo que veem um bebê, já tendo plena noção de que não são um mais um bebê, pois agora já conhecem crianças menores, fazem aquela pergunta: “pai, de onde vêm os bebês?”

“Ó meu pai, tão cedo, eu não esperava.” É nessa hora que o coração se parte, o suor frio escorre pela testa, não há nenhuma escapatória viável para fugir da pergunta. Talvez, se o pai morar em andar térreo, possa até contar com a janela, mas, certamente, essa não será uma das melhores saídas. É melhor assumir. “Filho, nós mentimos esse tempo todo, mas foi preservar vocês do que vem pela frente. Não posso mais mentir, trata-se de uma conspiração. Sua mãe, eu e todos os pais do mundo. Escondemos de vocês o tempo todo. Pensávamos que era mais fácil fazer vocês pensarem que a coisa era mais física, a união de dois corpos para formar um novo corpo, mas não é assim. A verdade é essa: seu pai leva sua mãe ao motel para instalar uma criança dentro dela. A instalação leva um tempo, é necessário um técnico especializado para fazer a instalação. O instalador geralmente é um homem sem pai e sem mãe. Não pergunte como ele nasceu, eu não sei. O fato é que ele não pode ter nem uma mamãe, nem um papai.”

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A piranha

Mário e Carlos eram amigos de infância, se conheciam desde pequenos e combinavam em tudo. Eram grandes amigos, até conhecerem Lorena.

Coisa incrível, ambos se apaixonaram por ela, justo ela, o corrimão do bairro. Vai lá se saber o que deu na cabeça desses dois.

De fato, o que aconteceu levou os dois a inúmeras brigas, mas o que Lorena tinha a ver com isso? Até onde se sabe, o que ela teve com cada um dos amigos não passava de mera esfregação, nunca levou a sério nenhum dos dois. 

Por eles, ela só teria, no máximo, amizade, se é que poderia chegar a isso. Eles, porém, demoraram muito tempo para perceber isso; no entanto, aconteceu, e numa mesinha, no mesmo bar de sempre, os velhos amigos se entenderam e, por fim, fizeram as pazes.

"Mulher nenhuma vai ficar entre a gente, se elas assim quiserem, não são boas o suficiente para nenhum de nós", era o que mais se ouvia no papo dos amigos.

A certa hora, depois de alguns chopes, Carlos precisou ir ao banheiro. Era a deixa para Mário, que — vai lá se saber por quê — despejou no copo do amigo um certo pó branco que guardava num pequeníssimo frasco. Carlos, ao voltar, não percebeu nem desconfiou de nada diferente ao seu redor, e tomou o chope. 

Em outro momento, Mário também precisou ir ao banheiro, e foi, sem desconfiar nem um pouco do amigo, que ficou na mesa rindo de histórias do tempo em que os dois eram pequenos amigos. Em vez de preocupação, o que havia em sua cabeça era simplesmente o remorso de ter envenenado o amigo, e por isso, suando frio, pensava: "tenho cerca de duas horas para me livrar dele. Ah meu deus, como faço?" 

É, mas ao que tudo indica, Carlos também não estava de brincadeira e, por isso, também despejou no copo do amigo um certo pó, muito misterioso por sinal, pelo menos da forma que estava guardado. 

Dois dias depois, no velório dos dois amigos, uma mulher muito atraente — e quente, diga-se de passagem — perguntava à avó de Mário, que viu os dois crescerem em seu quintal, o que havia acontecido com aqueles dois.

Em resposta, a velhinha só conseguiu dizer:

— Ah, parece que foram envenenados por uma piranha por aí.