Bom, se tem uma coisa em que eu nunca prestei muita
atenção é no fato de que o sotaque só é mesmo notado por quem não o tem.
Minha primeira ida ao Maracanã, uma vontade de menino
realizada. Saindo de Campo Grande, acompanhado por um amigo, parti em direção
ao Terminal Alvorada, na Barra da Tijuca. Quando chegamos ao terminal, ele, que
também não sabia como chegar ao estádio, me ajudou a pegar algumas informações
sobre como chegar. Ele ia trabalhar e, como só sairia com pouco tempo para
chegar ao estádio, não estaria lá a tempo de ver o jogo. Eu o acompanhei até
uma lanchonete próxima ao terminal. Após isso, dei um passeio pela Barra, ô
área que tem shoppings, viu?!
Em meio ao meu passeio, um segurança de plantão que me
via passar reclamou do fato de passado um vascaíno por ele, “justo hoje que o
mengão vai ganhar, o cara passa aqui com camisa do Vasco!” Cumprimentei de
longe, mas mudei de ideia e me aproximei, fui perguntar por algum posto de
venda fora o próprio Maracanã. Na hora, pelo sotaque, ele reconheceu, “ah, tu é
mineiro da capital, né?” Realmente, eu sabia que dava para notar que eu não era
de lá, mas de cara notar que eu sou de BH, essa eu não imaginava, até mesmo
porque, por conta de uma agenesia dentária e uma língua enorme, fora uma voz
horrorosamente grave para alguém que não tem nem 1,70m de altura, quase
ninguém, mesmo aqui em BH, entende o que eu falo.
Um pouco depois de dar umas voltas pela Avenida das
Américas, quase todo esse tempo em busca de um caixa eletrônico (o que estava
embaixo do meu nariz, lá perto do terminal, e eu não via), voltei para o
Terminal Alvorada, e foi aí que recebi a iluminação suprema linguística, aquela
quer serviu para que eu entendesse que a língua falada corretamente é aquela
que se entende entre interlocutores. Primeiro, perguntei a um trocador (agente
de bordo, se preferirem):
- Amigo, para ir para o Maracanã, como eu faço?
- Irmão, pega aqui o 301 e desce na estação “Sench Pena”,
lá tu pega metrô, desce na Estácio e de lá desce no Maracanã.
- Deixa eu ver, pego o 301, desço na “Vicente Pena”...
- “Senchs Pena”.
Fui para o ponto do 301. Lá, perguntei a mais um trocador
se ele passava na estação “Champagne”.
- O quê?, perguntou o trocador.
- Estação “Sean Penn”.
- Estação “Senchs Pena” tu quer dizer, né?
- Isso.
- Passa.
Agradeci e, finalmente, quando o ônibus que iria sair
ligou o letreiro, vi que ele passava na Estação Saenz Pena. Não perdi tempo, ao
chegar à roleta (catraca para quem não é daqui), pedi ao trocador:
- Amigo, você me avisa quando chegar à Estação Saenz
Pena?
- Oi?
- Estação “Xespenca”.
- Estação “Senchs Pena”, é?
- Isso, essa mesma!
- Tranquilo, eu te falo.
Ao chegar à estação, vi que não me encontrava em nenhuma
estação “Senchs Pena”, “Saenz Pena”, “champagne”, “Sean Penn”, “prexeca”,
“xespenca”, “chispita”, era apenas a estação da praça Sáenz Peña (algo que eu
leio mais ou menos como Sáenz Penha). Não foi difícil chegar ao estádio a partir
dali; difícil mesmo foi engolir os 3x0 do Flamengo sobre o meu Cruzeiro. Essa
linguagem, a de quem perdeu, sempre é mais difícil de falar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário