Talvez nenhum fenômeno seja tão inexplicável quanto o amor...
Todos os dias são comuns casos de crimes passionais, loucuras feitas por dependência de outras pessoas, pessoas tornando-se depressivas ou matando por pensarem que outras pessoas são de sua posse. Enfim, o amor é, no mínimo, uma epidemia.
Mas o que me choca em relação a essa doença não é o número de vítimas diárias ou ao longo da história – embora convenha dizer que nem a gripe espanhola tenha matado tanto –, e sim o número enorme de pessoas que querem porque querem contraí-la.
Agora, imaginem um maestro. Mais do que isso, além de maestro, também compositor.
Imagine se este maestro, além de trabalhar com o que mais ama, fosse aclamado por este trabalho. Um homem que compusesse como se falasse, e com pleno domínio de sua oratória. Alguém cuja própria música lhe servia de palavras. Um homem-música.
Um homem assim tem tudo? Ele pensava que sim. Até conhecer Ada.
O maestro agora era um doente, mas se sentia o homem mais feliz do mundo. Mulher cretina! Fez da música um arco-íris sem fim. Sem fim! Sem fim!
A doçura fazia de sua música mais comovente e mais dócil, é verdade. Mas Ada não era apenas música agora, era também obsessão. O maestro nela só via o amor, aquela doença da qual eu falava; ela no maestro, só a doença; Até conhecer Nícolas.
Não fosse a inteligência e a poder de sedução de Nícolas, o diabo não precisaria ser entrar nessa história. Mas o maestro sentia a traição, mesmo sem ver. Dizem que o que os olhos não veem, o coração não sente, mas até a batuta sentia, o que dizer da orquestra?
O gênio já não se importava com mais nada, queria ver Nícolas morto e Ada pelo “até que a morte os separasse”. E assim o diabo o fez: Nícolas morreu repentinamente, ninguém sabe de quê, um ataque cardíaco talvez. Ada, sem consolo, voltou para os braços do maestro após suas semanas de sofrimento. Este não precisou de nada mais do que vender a própria alma.
Uma segunda primeira noite
Ele fez de tudo para que fosse a noite mais perfeita de suas vidas, e foi. Só não esperava pela grande surpresa que teria ao amanhecer.
Ada estava mais linda do que nunca, deitada ao seu lado, de olhos fechados com um sorriso de quem realmente tivera, enfim, encontrado o que mais queria, e encontrou. Sua pele estava mais clara, seu corpo mais frio – extremamente frio, diga-se de passagem.
Ada estava morta, o maestro vivo. O diabo cumprira sua promessa. O maestro era seu. Ada pertenceu ao maestro até que a morte os separou.
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