Eu estava em estabelecimento comercial – que não vou falar de quê – que tinha uma televisão ao fundo. Nesta televisão o Jornal Nacional passava uma reportagem sobre Steve Jobs, que em tudo o que se referir a ele como gênio eu vou concordar. Eis que o atendente se vira para mim e fala “Esse cara era o 'cara', né?!”, eu respondi que sim, ele era. Nisso, ele me respondeu: “E não valeu de nada. 'Tá' embaixo da terra agora.”
O fato de não ter intimidade com o sujeito não me permitiu impor meu ponto-de-vista. O fato é que a vida de olho gordo que a mídia tem nos imposto como padrão de vida pode nos levar a viver uma vida que considere como vitórias apenas o que se conquista quantitativamente, esquecendo assim da qualidade; muita gente não sabe isso, mas qualidade não se conta.
Fico pensando em uma ideia simples, que retiro de palavras que o jornal Bom Dia Brasil no dia 6 de outubro atribuiu a Jobs; nesta ideia, Jobs afirmaria que o fato de saber que iria morrer o fazia mais dedicado a seus objetivos. Embora as palavras não fossem essas, a mensagem era a mesma.
Isso me lembra meu tempo de criança. Bastava ganhar algo que realmente queria para cair “na fossa”, nem mesmo o que eu mais queria podia me deixar contente o suficiente para eu esquecer que o tempo iria passar, e eu um dia iria morrer. As palavras de Jobs me parecem coisa de quem pensa diferente dessa forma, alguém que, ao ganhar o brinquedo que realmente queria, não perderia tempo pensando em quando tudo iria acabar, mas simplesmente brincaria o quanto pudesse.
Creio que alguém como Jobs tinha a vida como uma espécie de dívida a qual devêssemos respeitar como fazemos com as demais. Um amigo outro dia me falava de uma frase que seu pai o falou, uma frase que merece reflexão: “Nenhum homem cresce nessa vida se não for com dívida”. Excelente, assim como para estudar muitas vezes temos que contrair dívidas, para conseguir outras conquistas também. Mas esse ainda não é ponto ao qual quero chegar, quero ver a vida como uma dívida ou talvez a obrigação de uma. Creio que este sim seja o limiar da vida adulta.
Se eu vir a notar que tenho uma dívida com a vida, poderei pensar diferente do que tenho pensado a vida toda – assim como a maioria das pessoas, eu tenho sobrevivido à vida e não vivido ela.
Agora eu penso da seguinte maneira: Jobs pode ter ido novo, mas confesso que um pensamento qualitativo da vida pode nos levar à preferência por viver 55 anos bem vividos a viver 90 anos de desgosto. Será que Jobs e os demais grandes da humanidade – estes outros gênios, guerreiros, sábios, homens ou mulheres – que morreram cedo não tiveram uma vida que tenha valido a pena só porque se foram mais cedo? Creio que devemos saber, antes de tudo, se queremos uma vida de quantidade ou qualidade, em especial no que se refere aos anos vividos, o homem daquele estabelecimento comercial devia saber disso.
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